Festejo a Carvalho Calero

A RAG decidiu dedicar o Dia das Letras Galegas 2017 ao escritor ourensão Carlos Casares Mourinho (1941-2002), uma pessoa para mim cordial, em todos as ocasiões em que tratei com ele.

Por Ramón Varela | A Coruña | 21/07/2016

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Enviou-me uma colaboração para um librinho que publiquei em 1980 titulado Galiza, um povo, uma língua. Também aceitou um convite meu para lecionar uma conferência no Instituto Pontepedrinha de Santiago de compostela. No transcurso da mesma, eu defendi que o reintegracionismo facilitaria grandemente a projeção dos nossos criadores na grande comunidade de países lusófonos, e muito especialmente os literatos. Ele retrucou que não creia que isso tivesse um efeito significativo na difusão da nossa cultura. Eu considerei que não era pertinente ensilvar-nos em nenhuma discusão e deixei que aparecessem ante os estudantes como dous posicionamentos dispares quee não têm que coincidir. Ao cabo de seis meses estava defendendo um posicionamento próximo ao meu, que nunca atribui a nenhuma conversão como resultado da nossa charla, mas si quiçá como um elemento mais que lhe ajudou a matiçar a sua primeira posição. Pela minha parte, não acho nenhum reparo em que se lhe dedique o próximo ano o magno dia das letras á sua honra.

Carvalho Calero era uma figura para mim grande e entranhável a um tempo. Também participou com uma colaboração no livro acima citado, com uma pontualidade e um rigor invejáveis. Acudiu também a lecionar alguma conferência programada pelo nosso Seminário de Filosofia no Instituto de Melide, a proposta minha, lá pelos anos 1982-1984. Pude charlar em privado detidamente com ele após a  conferência e isso permitiu-me comprovar a sua amplissima erudição, o seu rigor expositivo e a amenidade da sua exposição. Não tratamos do tema do reintegracionismo, do qual ele era o seu máximo representante na Galiza, e, neste tema, eu  considerava-me como o seu discípulo. Ele foi o principal artífice da primeira normativa do galego, de tendência eclética e integradora, que facilitava a via a uma de tendência mais declaradamente reintegracionista. Mas uma vez mais, os setores mais declaradamente hostis á nossa língua decidiram impor a sua solução: a via «isolacionista»ou seja, a mais próxima ao espanhol, que Filgueira Valverde justificava em base a que isso permitiria-lhe aos meninos galegos aprender o galego a partir do espanhol. Tratei com Carvalho alguns pontos conflictivos da normativa que os isolacionistas queriam impor num texto de filosofia para COU, editado pela Xunta da Galiza no que participamos vários autores; lembro-me em concreto o relativo á palavra fogo, como um dos quatro elementos que compõem a realidade, que os corretores oficiais queriam desterrar para substitui-la por lume. Carvalho opinava que o termo fogo era autenticamente galego e que tem usos que não estão cobertos por lume, como quando dizemos armas de fogo e não armas de lume.

A essa altura já estava mui estendida a idéia de que Carvalho era objeto duma manifesta animalversão por parte do setor isolacionista dominante na Real Academia Galega, em especial por parte do diretor do ILGA, o asturiano Constantino González, que tinha poder sobrado na Academia para impor o seu critério. Inclusive correu a notícia de que Constantino lhe fizera uma proposta a Carvalho Calero de fazer-lhe uma grande homenagem a câmbio de renunciar ao reintegracionismo, que Carvalho não aceitara. Desconheço o grão de veracidade desta informação, que somente podo oferecer como um relato que estava no ambiente, mas o que si é certo é que traduzia uma certa hostilidade cara a RAG por uma praxe que não se corresponde com a enorme valia desta personagem, que constitui um orgulho para a nossa nação.

Quando presidia a RAG Domingos Garcia Sabell exercia nela um férreo controle que impedia que acedesse a numerário nenhum aspirante que se sinalasse pela sua ideologia marxista e esquerdista, que si tiveram via livre a partir da presidência de Francisco Fernández del Riego. Mas os autores de tendência reintegracionista continuaram a estar proscritos nesta instituição, e de ai que somente se manifestassem pronunciamentos favoráveis a esta tendência por parte de acadêmicos que experimentaram uma certa evolução nos seus posicionamentos, porque a entrada de pessoas reintegracionistas sempre se considerou um tema tabú e continua e continuará sendo-o por muitos tempo. Considera-se que estas pessoas não são autenticamente galegas e de ai que devam purgar a sua culpa mediante o ostracismo institucional. Ojalá que a minha profecia não se cumpra e que a situação se normalice e se evolua cara ao que foi o decurso normal em liberdade da nossa língua na Galiza do Sul.

Parece que a RAG não tem mui bem delineado o critério de acesso á instituição por parte dos candidatos a ser festejados o Dia das Letras Galegas. Por vezes pareceria que se guia por um puro critério têcnico, como sucedeu com Filgueira Valverde, e outras opta por modelos sociais mais integradores, únicos que podem alcançar uma certa popularidade. Mas, segundo o meu critério creio que Carvalho Calero não mrece o trato que está a receber por parte da RAG por ser uma pessoalidade das mais sobresalentes no panorama cultural galego que pode e deveria servir como referente para as gerações futuras.

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Ramón Varela Ramón Varela trabalhou 7 anos na empresa privada e, a seguir, sacou as oposições de agregado e catedrático de Filosofia de Bacharelato, que lhe permitiu trabalhar no ensino durante perto de 36 anos.