A quem votar?

Ao formular a pergunta, a quem votar? pareceria que damos por suposto que devemos ir votar, mas isto é o que há que clarificar em primeiro lugar. Hoje o fastio e o nojo pela incompetência e a corrupção na política estão tão amplamente estendidas na sociedade espanhola que seguro que muitos se perguntarão se devem abster-se para que não se entenda que apóiam um sistema caduco e decrépito. A respeito desta atitude devemos dizer, em primeiro lugar que quiçá não lhes afete muito aos responsáveis deste desaguisado. Quem não têm vergonha para criar um modus operandi para apropriar-se do dinheiro das arcas públicas não se vai ruborizar porque os cidadãos acudam a votar em menor quantidade.

Por Ramón Varela | Ferrol | 20/09/2016

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Aliás, tem o inconveniente que pode prejudicar muito mais precisamente aos que menos participação tiveram nem na resolução da crise nem na corrupção sistêmica que padecemos e criar a falsa impressão que todos os políticos são iguais. Uma abstenção pode prejudicar muito mais a quem se abstém que aos que se vêem afetados pela abstenção.

Em caso de que nos decidamos ir votar, a eleição das alternativas não é nada fácil. Aquele que seja de direitas e espanholista, que agora muitos cambiam pelo nome eufemístico de constitucionalistas para disfarçar a verdadeira realidade e quiçá acalmar a sua falsa consciência, as opções são PP e Cidadãos. Os votantes do PP é difícil que não sintam certa repugnância em votar a um partido que chegou a uma degradação das maiores de Europa por estar imerso num oceano de corrupção, além de que a superação da crise não acaba de chegar. A corrupção custa-lhe uma quantiosa quantidade de dinheiro aos cidadãos, que algumas fontes elevam a nada menos que 87.000 milhões de euros ao ano, dos quais uns 47.600 milhões corresponderiam a sobrecustos na administração do Estado, não só devido ao dous ou três por cento que têm que pagar os adjudicatários de contratos para que lhe sejam aceitados os seus orçamentos, senão pela quantidade em que elevam os seus importes para conseguir aproveitar-se duma contrata já pré-assignada. Os outros 40.000 milhões de euros viriam derivados das múltiplas formas que tem a corrupção. Ainda que somente fosse a metade da cifra indicada, a quantidade é astronômica e chegaria para evitar os recortes em sanidade, educação e dependência. A respeito da crise, podemos dizer que, apesar do enorme deterioro do estado do bem-estar, como conseqüência das políticas aplicadas, o país continua endividando-se a passos agigantados, alcançando sucessivamente recordes históricos. Por outra parte, o déficit da Segurança Social continua incrementando-se devido a que os cotizantes viram minguados os seus salários e, por tanto, cada dia pagam menos para a caixa das pensões, que podem ter problemas de sustentabilidade no tempo. Em todo caso, já estão congeladas indefinidamente.

Cidadãos reforçou ainda mais que o PP o seu espanholismo, coincidindo com este partido na denegação do reconhecimento de qualquer direito aos povos que conformam o Estado espanhol, salvo os que se referem ao povo espanhol; os dous pretendem acomodar as realidades nacionais aos seus preconceitos em vez de acomodar os conceitos ás realidades nacionais, amostrando, por conseguinte, um déficit notório de democracia. No modelo de sociedade coincide basicamente com o PP, tanto no que afeta aos recortes como ás privatizações e o liberalismo. Tem a vantagem de que, de momento, não está tão denegrido pela corrupção como o PP.     

Os espanholistas ou unitaristas de esquerdas têm como opções o PSOE e Unidos Podemos. O primeiro coincide com o PP e Cidadãos no modelo de Estado, amostrando também um déficit de democracia, e, pelo que diz respeito ao modelo de sociedade, ocupa um espaço de centro-esquerda, próximo a Unidos Podemos. Sem alcançar o nível do PP, está também mui afetado pela corrupção e pelas portas giratórias, ao tempo que condicionados por dependências das instituições financeiras. Atualmente sofre fortes tensões internas na sua cúpula entre os partidários de seguir o que pensam os militantes, mais bem partidários de confluir apresentar uma alternativa de governo de esquerdas, coligando-se com Unidos Podemos, e os que são partidários de passar á oposição e deixar que governe o PP. O seu líder, Pedro Sánchez, está mais atado em curto pelo Comité Federal que qualquer líder anterior e vê obstaculizada a tomada de decisões, principalmente por aqueles que o nomearam para o cargo. Não seria nada surpreendente que todo isto conduza á cisões na formação entre o setor mais progressista que se move na órbita de Pérez Tápias, e o setor mais conservador que se move na órbita de Felipe González, Vara, Susana Díaz,... que são os que controlam o Comité Federal.    

Unidos Podemos move-se no espaço duma esquerda um pouco mais radical e, num clima de negação teimosa dos direitos dos povos, tem a valentia de defender abertamente o direito a decidir para solucionar democraticamente os problemas políticos, sem recorrer, como fazem os outros partidos espanholistas, á repressão. Tem também várias correntes internas e não está claro como vão estabelecer uma síntese harmônica entre elas.

A nível galego incrementou-se, com respeito ao que vinha sendo tradicional na Galiza, o sucursalismo espanholista e diminuiu o peso do nacionalismo, que, ademais, só pretende ocupar o espaço da esquerda, deixando-lhe a via livre ao espanholismo na direita. Anova confluiu com Unidos Podemos, para constituir o partido instrumental Em Maré, mas o seu peso na coligação é claramente de satélite a respeito de Podemos e Esquerda Unida. Esta satelização vai fazer impossível que poda promover uma política de defesa do direito de autodeterminação aberto á opção da independência. Pode chegar a defender que o povo galego se pronuncie sobre esta opção, mas sempre que se mantenha na órbita da Espanha, e, por tanto, vão votar não á independência. O modelo de sociedade que defendem pode ver-se claramente afetado pela sua satelização no modelo de estado, e, por tanto, pela carência dos instrumentos políticos precisos para levar adiante as políticas sociais. Considero que peca claramente de ingenuidade ao crer que se vão solucionar os problemas da Galiza com ordens emanadas da capital do reino. 

O BNG, pelo que diz respeito ao modelo de estado, é o único partido com opções de ter representação parlamentaria que defende claramente o direito de autodeterminação da Galiza e, por tanto, um direito fundamental dos povos a decidir livremente o seu futuro. Foi capaz de evitar qualquer satelização e manter um projeto político autônomo para a Galiza, ao tempo que se dotou duma líder que está a surpreender positivamente pela sua clareza mental, a sua facilidade expositiva e a sua serenidade. Entendo, com todo, que tem que melhorar o seu modelo de sociedade porque se quer chegar a governar o nosso povo não poderá fazê-lo desde posições de extrema esquerda, e guiado em exclusiva por um partido comunista. Espero que nesse processo de refundação que está em curso seja capaz de abrir-se decididamente á sociedade e tomar nota para evitar problemas do passado.

Finalmente, Compromisso por Galiza defende um galeguismo manco e timorato, semelhante ao catalanismo da Unió Democrática de Catalunya, optando pelo autonomismo num momento em que a solução autonômica está claramente fracassada. Nega o soberanismo e muito mais a independência, e, por tanto, um direito de autodeterminação para a Galiza digno de tal nome. Teve a vantagem de não cair na satelização, e, por tanto, de manter um projeto político autóctone para Galiza. No modelo de sociedade cometeu o erro de ancorar-se, ao igual que os outros partidos nacionalistas, no espaço da esquerda e não aproveitar a sua fundação para criar um espaço político de centro na Galiza. Isto faz que se veja achicada pelo BNG e por Em Maré.

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Ramón Varela Ramón Varela trabalhou 7 anos na empresa privada e, a seguir, sacou as oposições de agregado e catedrático de Filosofia de Bacharelato, que lhe permitiu trabalhar no ensino durante perto de 36 anos.