Vive Le Pen!

Mas por que os operários confiam mais na extrema direita do que na esquerda “real”? Se calhar é porque são conservadores. Se calhar porque o discurso de Le Pen é mais directo e mais simples, sem matizes nem sofisticação. Se calhar porque identificam o discurso da esquerda com a demagogia “buenista” dessas elites que semelham detestar. Se calhar porque Le Pen está a prometer o mau conhecido, um lugar seguro e familiar ao que regressar. Um lugar com empregos estáveis e créditos generosos que permitam os operários viver o sonho americano, o sonho do petit-bourgeois.

Por KoroshiyaItchy (http://koroshiyaitchy.wordpress.com/) | GC ABERTO | 26/04/2012

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Elsass

Mulhouse, Departamento do Alto Reno, Alsácia, França, 23 de Abril de 2012. Outrora coração industrial da Europa, a maioria das regiões ribeiranas do Reno e do Mosela acham-se, em maior ou menor medida, em estado de crise permanente desde há décadas. Como a Sarre, na Alemanha, e a Lorena, na França, as duas entre as mais deprimidas nos seus respectivos países. Milhares de trabalhadores chegados desde a Itália, a Espanha ou Portugal forjaram cá o seu porvir junto com os mineiros e siderúrgicos nativos. Braços de aço e pulmões de carvão, a crise na siderurgia deixou-nos a esperar por uma reconversão industrial que era apenas eufemismo, como a nossa do naval.

Compro o jornal no quiosque da esquina. Semelham terem apenas periódicos de direita. Le Figaro deposita as suas esperanças no sorpasso da filha Le Pen, o qual, a priori, deixaria bastantes possibilidades abertas a Sarkozy na segunda ronda (La percée de Marine Le Pen relance le second tour, leio).

Os resultados eleitorais na vila de Mulhouse foram mais semelhantes aos da meia francesa. Porém, fora das vilas mais grandes, estas regiões são feudo tradicional das direitas. Tanto no Alto Reno como no Baixo, e em geral em toda a Alsácia, arrasou Sarkozy com perto do 33 % dos votos, seguido de Le Pen (filha) com mais dos 22 %. Hollande mal supera os 19 % e Mélenchon colheitou os seus piores resultados entre as regiões francesas, sendo superado por Bayrou. Na mais maltratada Lorena, foi-lhe pior a Sarkozy e melhor a Hollande e a Mélenchon, mas também sensivelmente melhor a Le Pen. O Departamento da Mosela, pela sua banda, deu um empate técnico entre Sarkozy, Le Pen e Hollande (por esta ordem).

Na rua vêem-se mais africanos, já forem magrebinos ou subsarianos, do que outra cousa. Alguns analistas afirmam que são eles e não os operários “reconvertidos” quem distorce as percentagens nas vilas a respeito da meia regional, achegando-as um bocadinho mais à meia estatal. Não surprende, pois, que Hollande queira dar-lhes voz nas eleições comunais. Os operários e os viticultores votariam Sarkozy e Le Pen (pai ou filha, tanto faz). O dos viticultores e os labregos não admira e, significativamente, cumpriria acrescentar que há cinco anos o único dos grandes partidos ao que escutei empregar algo os dialectos alsacianos na sua campanha pelo rural foi precisamente o Front National. Este feito pode semelhar paradoxal desde uma perspectiva espanhola, mas na França não é assim tanto como parece.

FN

O discurso populista do Front National baseia-se precisamente nisso: conservadorismo e tradicionalismo no senso mais estrito. Voltar à França de de Gaulle, onde um operário trabalhava toda a vida na mesma empresa e poupando, poupando, dava-lhe o salário para comprar um carro e uma casa e até para veranear, ainda que for num camping. Onde um agricultor francês não tinha que competir com os espanhóis e marroquinos. Onde a República era branca e francesa, católica e laica a um tempo, e os imigrantes assumiam submissa e resignadamente o papel que tinham encomendado na economia nacional. Um lugar conhecido, seguro, do que muitos têm saudades.

E precisamente desses imigrantes é do que mais se vai falar na segunda volta, tememos. Particularmente numas eleições marcadas pelos trágicos sucessos de Tolosa (e de Lieja).

Cabalas

Sim, porque, segundo as sondagens, os votantes Mélechon e Joly vão apoiar Hollande de maneira maciça (lógico, num país que apenas conheceu a alternância política nos tempos de Miterrand). Os de Bayrou, visto que o espaço político centrista entre o PS e a UPN é mais fino do que uma folha de papel de fumar e vista a eterna indefinição do seu líder (embora este ano anunciou que poderia dar consignas de voto), vão previsivelmente dividir-se ao cinquenta por cento. Os que não fiquem na casa. Se isto é assim, tudo vai depender dos votantes do Front National. Agora mesmo, as sondagens dão 60 % para Sarkozy, 20 % para Hollande e 20 % indecisos. Estes resultados fariam Hollande presidente. Mas se Sarko dá mobilizado os indecisos e conquistado ou desmobilizado parte desses 20 % que declararam por Hollande… tout deviendra possible…

Immigration choisie (par qui?)

Ao Sarkozy já lhe saíra bem a jogada há cinco anos com o discurso da “immigration choisie” (a imigração escolhida). O conto consistiria em deixar entrar apenas aqueles imigrantes qualificados para realizar aqueles ofícios para os quais a demanda de mão de obra não podia ser coberta por trabalhadores franceses. Bom, essa era a teoria, mas segundo dados de Marine Le Pen (!), durante o mandato de Sarkozy, em plena crise e com o desemprego em alça, entraram na França mais imigrantes do que durante a última legislatura de Chirac, sendo na sua maioria pessoas não qualificadas. Não sei se isto é certo ou não, vista a fonte, mas na verdade não admiraria nadinha. Sim, porque embora normalmente a direita tem um discurso anti-imigração e a esquerda um discurso pró-imigração, o certo é que em geral os dados mostram que, na prática, com os governos de direitas entram mais imigrantes e, nomeadamente, mais imigrantes não qualificados. Às mesmas conclusões chegamos comparando os dados do governo Obama com os do de Bush filho. Isto faz sentido, porque, retóricas à parte, “as esquerdas” são naturalmente mais “planificadoras” e intervencionistas, enquanto as direitas são mais propensas a “liberalizar” o mercado de trabalho em benefício do capital. E o capital quer mão de obra submissa e barata (e não sindicalizada).

In the ghetto

Na França a imigração é um problema. Principalmente porque os filhos e netos daqueles argelinos e marroquinos que chegaram para reconstruir a França de pós-guerra ou daqueles que chegaram após as guerras de descolonização já não se conformam com o status secundário que tiveram e têm os seus pais e avós. Não, eles nasceram na França e têm os mesmos valores e aspirações que quaisquer outros jovens franceses e europeus, quando menos no que diz do hedonismo, do individualismo e do consumismo. Gostariam de ter as mesmas oportunidades, mas não podem. Se muitos jovens franceses “de souche” vão de CDD em CDD, alternando-os com períodos de desemprego, para uma pessoa de origem africano o tema é ainda mais complexo. A discriminação é como as meigas. Não existe, mas havê-la há-a.

Um estudo feito por uma agência de trabalho temporal enviando para as empresas currículos idênticos, mas mudando apenas um parâmetro de cada vez (género, origem étnico, bairro, etc) mostra que os mais discriminados são com diferença as pessoas com deficiências físicas. A segunda razão para a discriminação é o bairro (quer dizer, a classe social) seguida de perto pela origem étnica. Estes dados mostram uma França extremamente classista e guetificada. Como nos EUA, por nascer num determinado bairro uma pessoa fica praticamente excluída do mercado laboral ou condenada à precariedade. Se, por cima, não é da “raça” adequada, a probabilística duma integração digna é marginal. Isto cria bairros sem esperança e esses guetos sem esperança são o caldo de cultivo perfeito para a delinquência, os comportamentos anti-sociais e o fanatismo religioso. Impedidos de serem cidadãos “normais”, não admira que muitos moços se refugiem em ideologias nocivas ou apanhem o pior dos dois mundos, uma França que não os quer (ou quer-os escravos e submissos) e os países de origem dos seus pais onde são considerados estrangeiros.

A França, na verdade, tem medo deles como a América tem medo dos pretos e hispanos. Medo da vingança. Esse medo é um dos principais carburantes que propulsam o Front National. Mas não o único.

Crime e castigo

Evidentemente, no voto ao FN há também uma percentagem importante do chamado “voto de castigo”, que mostraria o descontento da sociedade, quer com um determinado partido ou personagem político, quer com os dous partidos maioritários, quer com o sistema político no seu conjunto.

O enérgico Sarkozy prometera emprego, eficiência, seguridade e regeneração ética. Resultados? Nulos, quando não negativos. Agravamento da crise e do desemprego, parálise executiva, aumento da inseguridade cidadã (a qual, como vimos de ver tem causas socioeconómicas muito profundas e complexas), escândalos e corruptelas diversas,…

Mas qual é a alternativa, um homem de palha como Hollande dum partido de palha como o PS que promete mais do mesmo? Segundo Robert Ménard (veja-se NOTA no rodapé), o voto do FN seria, de facto, um sintoma do enfartamento das classes populares com umas elites tão hipócritas quanto incompetentes que miram apenas pelo seu benefício pessoal.

Europa

Os franceses recusaram de maneira maciça em referendo a mal chamada “Constituição Europeia” ou Tratado de Lisboa, não apenas foi a sua vontade completamente ignorada se não que durante a legislatura de Sarkozy virou evidente a perda de peso específico da França no contexto europeu e a submissão aos interesses do capitalismo alemão e à sua porta-voz Angela Merkel. O deficit democrático das instituições europeias é evidente por muito que os partidos maioritários e os media teimem em negá-lo.

Marine ou Mélenchon

Os operários de ArcelorMittal na vila lorena de Florange (Flörchingen) estão ameaçados de despedimento por feche da usina. Não é que não seja rendível, mas não é “o suficientemente rendível” para interessar os accionistas e investidores, que preferem investir os seus capitais em actividades mais lucrativas.

Há cinco anos, Sarkozy foi pescar a Florange com promessas vazias. E pescou. Este ano foram lá Hollande, Mélenchon, Le Pen, Arthaud, etc. Sarkozy foi duramente castigado por esses operários que se consideram traídos por ele (veja-se NOTA 2). Alguns confiaram nos cantos de sereia de Hollande. A esquerda de Mélenchon e Arthaud, em teoria os candidatos que deveriam ser mais atractivos para uns operários em dificuldades, nem fu nem fa. A grande pescadora foi Marine Le Pen. Até alguns líderes sindicais confessam ter votado por ela.

Mas por que os operários confiam mais na extrema direita do que na esquerda “real”?

Se calhar é porque são conservadores. Se calhar porque o discurso de Le Pen é mais directo e mais simples, sem matizes nem sofisticação. Se calhar porque identificam o discurso da esquerda com a demagogia “buenista” dessas elites que semelham detestar. Se calhar porque Le Pen está a prometer o mau conhecido, um lugar seguro e familiar ao que regressar. Um lugar com empregos estáveis e créditos generosos que permitam os operários viver o sonho americano, o sonho do petit-bourgeois que semelha ser o que, no fundo, queremos todos.

Ou não? Como se perguntaria retoricamente o Cuínha.

Seja como for, Florange foi o ponto da geografia francesa escolhido por Hollande para começar a campanha da segunda volta. Na procura desses votantes do Front National, desrespeitados e tratados de descerebrados há apenas uma semana, hoje afagados a destra e sinistra.

 

NOTA: “Vive Le Pen!” é o título dum panfleto político da autoria de Robert Ménard (ex-director de Reporters sans Frontières).

http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20110331.OBS0580/info-obs-robert-menard-publie-vive-le-pen.html

NOTA 2: http://www.lepoint.fr/politique/election-presidentielle-2012/a-florange-le-fn-recrute-a-la-chaine-17-04-2012-1452294_324.php

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