Morte em Angola

Há algumas semanas atrás uma pessoa dizia: os Angolanos estão sempre a matar os familiares. Claro que isto dito assim parece muito chocante.

Por Bernardo Ramírez | Luanda, Angola | 22/04/2010

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Nem percebi bem, mas ele depois explicou: todas as semanas morre alguém da família, ou o pai, ou a irmã, ou a prima, ou a tia, ou o avô...

Depois, continuava, quando vais perguntar: mas o teu pai não morreu há dois anos, ele explica logo, este senhor não era o meu pai, era como se fosse, tomou conta de mim durante muitos anos enquanto o meu pai estava na guerra. Todos morrem sendo da família, mesmo não sendo. Isto acontece porque facilita a razão para participar no funeral e no enterro, mas também porque aqui se cria famílias muito alargadas.

Institução

Aqui neste terra o Óbito é uma instituição. Tudo pára, mais que os alambamentos, que os casamentos, que os baptizados e qualquer outro acontecimento. Quando alguém morre tudo pára. E como tanta gente morre, tudo pára muitas vezes.

A morte é realmente um fenómeno muito forte e importante. E neste país um fenómeno regular. Uma amiga minha daqui, ligou-me a dizer, Bernardo era só para te dizer que o meu irmão morreu. Confesso que não sabia bem o que fazer nem dizer. Perguntei como tinha sido. Ela disse que os colegas do trabalho do irmão o tinham levado para o hospital a dizer que tinha sido electrocutado, mas que o médico que o examinou não encontrou provas.

Pensei que ainda o fossem autopsiar, mas a verdade é que não. Ficaram sem saber o que realmente aconteceu. Pensei muito nisso, em acumular a dor da morte de um irmão à dor de não saber nada do que se passou nem da razão por trás do acontecimento. E isto porque, provavelmente, pagar a um médico legal para fazer a autopsia, parar o processo durante o tempo necessário, até investigar a morte seria um processo dispendioso, longo e provavelmente desinteressante para os responsáveis.

Morre-se muito

Mas aqui morre-se muito. Já vos tinha dito. Na estrada, por violência, por falta de condições de saúde, pelo descuido. Aqui a vida vale pouco, também já o tinha dito. E vale tão pouco que se vive como se tudo fosse acabar hoje.

E se juntarmos essa cerimónia e ritual da morte, com a quantidade de mortes, percebe-se uma das muitas razões pelas quais o ritmo aqui é lento, é tantas vezes quase parado. Porque na realidade há que celebrar a morte, como se celebra a vida.

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Comentarios

3 comentarios
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Bernardo

Caros amigos, obrigado pelas palavras. Se me quiserem acompanhar com mais regularidade podem sempre visitar-me em www.bernardoramirez.com


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Carlos

Concordo con Salgueiro. Levo léndolle algúns textos e gosto moito deles. Siga vostede así. Un saúdo desde Vigo.


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salgueiro

Formoso texto. Obrigado e continue enviando estas reflexões.


Rúa de Luanda/ Bernardo Ramírez