Em duas exposiçons de arte soviética em Madrid

No último fim de semana de outubro tivem ocasiom de visitar em Madrid duas exposiçons artísticas relacionadas com o maior acontecimento político do passado século: a revoluçom proletária que deu origem à URSS em 1917.

Por Maurício Castro | Ferrol | 02/11/2011

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As minhas escassas referências sobre essas duas mostras artísticas partiam do conhecimento de algumhas obras de Alexandr Deineka, protagonista da exposiçom patente na Fundación Juan March desde inícios do mês de outubro até meados de janeiro; e pola crítica negativa à ideologizaçom reacionária que envolve a exposiçom da madrilena Casa Encendida, sobre a criaçom artística na URSS entre 1917 e 1945.

Num caso e noutro, a minha visita colmatou as minhas expetativas e serviu-me para conhecer diretamente, através de centenas de obras concretas, um pouco melhor a produçom das duas etapas artísticas que caraterizárom a experiência soviética: a da vanguarda dos anos 20 e a do chamado realismo socialista, a partir de 1933.

Quanto a Deineka, artista cuja trajetória profissional começou em 1917 e atravessou várias décadas da Rússia soviética até a sua morte em 69, a contemplaçom dos seus grandes óleos só confirmou a minha rendiçom incondicional perante a beleza monumental da sua obra. A épica ilustraçom de episódios da luita revolucionária, a representaçom do padrom estético do homem e da mulher nova comunista, a figura coletiva da operária e do operário como protagonista da sua própria história no processo de construçom socialista, o génio nunca totalmente domado polos rígidos esquemas imperantes nas décadas de 30 e 40... a minha prévia atraçom pola sua obra, que só conhecia através de precárias reproduçons dos seus mosaicos, óleos, posters, murais, desenhos e gravuras, viu-se confirmada e ainda ultrapassada pola realidade da contemplaçom direta da sua obra, incluída a sua célebre 'Defesa de Petrogrado'.

Em favor dos promotores da exposiçom do pintor de Kursk, diga-se que fôrom bastante equilibrados e respeitosos em termos ideológicos, nom só com a obra e trajetória vital do artista, mas com a inteligência do numeroso público que já a visitou e ainda a poderá fazê-lo até inícios do ano próximo em Madrid.

O mesmo nom pode dizer-se da segunda exposiçom que visitei no passado domingo, na Casa Encendida, instituiçom cultural propriedade de Caja Madrid, que organizou, com o apoio dos governos espanhol e russo, umha significativa panorámica da atividade cultural soviética no período 1917-1945. A mostra toma o seu nome, 'A cavalaria vermelha', do livro de relatos sobre a guerra civil escrito por Isaac Babel, publicado pola primeira vez em 1929, e do famoso óleo de Maliévitch, de 1930, que recebe as pessoas que visitam a primeira das cinco salas que componhem o percurso artístico.

A sensaçom depois da visita é contraditória por vários motivos. O emocionante encontro com a  produçom artística da primeira revoluçom proletária triunfante, com uns materiais e umhas ideias que mantenhem e transmitem a sua vitalidade vanguardista, bate logo com o reacionário discurso ideológico da guia e de boa parte do catálogo da exposiçom. A reduçom ao absurdo aplicada à riquíssima atividade criadora daqueles intensos anos dificilmente resiste o juízo crítico de qualquer pessoa que visite esta ampla mostra artística.

Referências constantes ao “regime”, à suposta falta de liberdade criadora nos artistas, inclusive a um inventado desprezo por parte de Lenine em relaçom à arte, cujo exclusivo interesse seria servir para a deformaçom das massas... burdas confusons temporárias entre os produtos do culto à personalidade estalinista e as audazes criaçons vanguardistas da década anterior, tam revolucionárias como livres.

Porém, as graves acusaçons em funçom do conteúdo ideológico da arte soviética som afinal facilmente desmontáveis só com observar os tintes ideológicos dos realizadores desta exposiçom. Nom existe olhar neutral nem na produçom nem na crítica artística –na verdade, em nengumha atividade humana–, sendo a perspetiva paternalista e os ares de superioridade dos seus organizadores umha boa mostra da falsa neutralidade ideológica capitalista.

Enquanto escuitava a narrativa nada objetiva com que a guia nos conduzia polo suprematismo de Maliévitch e pola fotomontagem inaugurada nos cartazes de Klucis, através do construtivismo de Rodchenko e Stepánova, até o teatro de Meyerhold e os figurinos dos irmaos Stenberg, a arte analítica de Filónov e a experimentaçom sonora de Avraámov e Sholpo... nom podia deixar de perguntar a mim próprio quem teria empossado Caja Madrid da autoridade com que julga, a partir dos moldes posmodernos do capitalismo decadente atual, a grande explosom criativa que durante anos foi catalisada pola revoluçom soviética.

A resposta é simples: a posiçom de poder permite ainda hoje que, frente ao protagonismo que 1917 atribuiu a umha arte coletiva e alheia ao mercado, os padrons do dito mercado livre continuem a impor o que é bom e mau e a manipular a história sem pudor. Depois de todo, eles fam parte das mesmas classes dominantes que protagonizam os stencils críticos com que Maiakovski enfeitou as vitrinas da ROSTA, dentro da maré de denúncia artística, revolucionária e de massas que se seguiu à vitória bolchevique.

Mas o encontro entre sensaçons contraditórias nom se referiu só ao discurso ideológico anticomunista que empapa a exposiçom, o que por outra parte era perfeitamente previsível em funçom dos promotores da iniciativa. Impressiona mais conhecer o final de umha parte importante dos artífices da nova arte soviética que iluminou o mundo nos anos dez e vinte do século passado: um final paralelo à degeneraçom progressiva do impulso revolucionário nas décadas seguintes. Foi esse, sem dúvida, um triste e imerecido final para umha corrente artística e para um projeto libertador da humanidade que, no entanto, serve ainda hoje como referência fundamental para a conquista da nova civilizaçom com que todas e todos eles sonhavam.

Como simples expectador e junto a centenas de visitantes, concluo a dupla visita às salas de exposiçons madrilenas com vontade de recomendar a assistência e convencido de que o sonho daquela geraçom pode alimentar, em partes iguais, a arte e a luita dos povos nesta época de grande barbárie capitalista. A superaçom do capitalismo continua a ser hoje, como em 1917, o maior desafio que a humanidade enfrenta.

Maurício Castro



Mauricio Castro

Maurício Castro nasceu en Ferrol en 1970. Licenciado em Filologia Galego-Portuguesa pola Universidade de Compostela, dedica-se profissionalmente à docência de Português. É autor de diferentes ensaios, sobretodo de temática lingüística e sociolingüística, como a História da Galiza em Banda Desenhada (1995), Manual de Iniciaçom à Língua Galega (1998), Galiza e a diversidade lingüística no mundo (2001), o Manual Galego de Língua e Estilo (2007) ou Galiza vencerá! (2009). Primeiro presidente da Fundaçom Artábria, na actualidade fai parte da Comissom Lingüística da AGAL e da Direcçom Nacional de NÓS-Unidade Popular.